ROBÔ GIGANTE


Awika! Files #1 by ricacruz
fevereiro 10, 2009, 12:02 am
Filed under: Awika!, Cruz

Encontrei aqui um CD com todos os textos que foram publicados no site Awika! – revista virtual sobre tokusatsu que toquei com o Rodrigo em 2003. Era um tesão fazer esse site. Tinhamos liberdade total pra construir tudo do jeito que imaginávamos. Fazíamos tudo sozinhos; texto, diagramação, edição. Era pelo amor a camisa. Não ganhávamos nem um centavo. Depois de um tempo, com o trabalho apertando, começou a ficar difícil colocar tudo no ar dentro da periodicidade que a gente se propôs a cumprir. O volume do material era enorme e só interessava manter o site se fosse para continuar naquele formato – visual bacaninha, várias seções, bastante conteúdo. Uma pena mesmo. Quem sabe um dia dê coragem de encarar um projeto desses outra vez.

Por hora, vou republicar alguns textos que fiz pra lá. Começo pela capa da terceira, e última, edição virtual. Talvez essa tenha sido a maior matéria que eu já escrevi na vida. Sério! Fiquei semanas debruçado sobre o texto, colhendo detalhes, fuçando… Fui fundo. Esmiuçei todas as temporadas de Power Rangers até Força Animal com riqueza de detalhes e boxes adicionais. Pra poupar a barra de rolagem ai do lado, vou deixar de lado as temporadas e colocar aqui só o texto inicial, mais geral.

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O Impérío Sabam
10 anos de Power Rangers

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Opiniões pessoais à parte, fato é fato: a Saban Entertainment, produtora dos Power Rangers, foi a grande responsável pelo estabelecimento da indústria do tokusatsu no ocidente (entenda por indústria, neste caso, a interação entre um gênero televisivo duradouro, um extenso leque de produtos agregados e uma poderosa campanha de marketing projetando tudo isso). A grife criada em 1993 pelo empresário Haim Saban, que consiste em aproveitar as cenas prontas dos Super Sentai japoneses recentes e mesclá-las a filmagens feitas nos EUA, foi um fenômeno de audiência quando estreou e continua se renovando até hoje, dez anos depois. Isso numa época em que, principalmente se tratando de programas de televisão, as coisas costumam ser muito mais efêmeras.

No Brasil, o seriado também estreou em 1993, na Fox. Depois, migrou para a Fox Kids e, finalmente, foi para a Globo, onde passou a ser o líder de audiência dos programas infantis da emissora. Foi uma época de glória para os importadores tupiniquins, que traziam os brinquedos da série antes de qualquer empresa oficial se mexer (já que, como nos EUA, aqui também ninguém esperava que o sucesso do quinteto chegasse a tanto).

Apoiado no sucesso dos Rangers, Haim Saban tentou emplacar outros programas na mesma linha, como VR Troopers e Beetle Borgs, mas nunca chegou perto de superar a sua primeira empreitada (falaremos deles na próxima edição).

QUEM É HAIM SABAN?

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Muitos vão se surpreender ao saber que Haim Saban começou a carreira como músico. Israelita, Saban passou uma parte da infância no Egito e depois se mudou para França, onde estabeleceu a Saban Records. Lá, no fim da década de 1970, ele era responsável pela trilha sonora de vários desenhos. Ao mesmo tempo, Saban também licenciava produções japonesas no país. Em 1978, ele trouxe o animê que se tornaria um grande hit em toda a Europa: Ufo Robo Grandizer. Também produziu a versão francesa de Message from Space, da Toei, que ganhou o título local de San Ku Kai (!). Nos anos de 1980, o empresário comprou os direitos Policial do Espaço Gavan e Super Electron Bioman, que foram fenômenos de audiência e popularidade e, hoje, são os dois tokusatsu mais cultuados na França (como se fossem a dupla Jaspion/ Changeman de lá). Na mesma década, ele se mudou para Los Angeles e fundou a Saban Enterteinment, por onde é creditado, junto com o também israelita Shuki Levy (que também atuou em Power Rangers) em várias trilhas sonoras de desenhos animados, incluindo cults, como He-Man e She-Ra.

Em 1986, Saban tentou emplacar Bioman nos EUA, propondo uma gigantesca campanha de marketing junto à companhia de brinquedos Galoob Toys, mas a tentativa acabou não dando certo. Foi com o desenho Macron-1 (que juntava dois animes nipônicos: Missão Espacial Strungle e Deus da Guerra Civil Go Shogun), que Saban começou a comer pelas beiradas o poderoso do mercado americano. O programa teve uma certa aceitação, mas não tanta quando seu próximo lançamento, Saber Riders e os Xerifes Estelares , que foi exibido no Brasil pelo SBT (desta vez, a base foi o animê Cavaleiros Estelares Bismark). Mas o desenho que ergueu a Saban nos EUA não era calcado em nenhuma produção japonesa, apesar de a animação ter sido produzida, em parte, por lá: Inspetor Bugiganga, também exibido aqui pelo SBT.

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O contrato de exclusividade entre Saban e a Toei Company foi o maior trunfo do empresário depois do estouro de Power Rangers, pois muitos outros licenciantes tentaram trazer para os EUA programas similares para aproveitar a onda e faturar alguns trocados. No entanto, quando isso acontecia, Saban jogava seu contrato com a matriz na mesa e resolvia o impasse. Diante da impossibilidade em adquirir os direitos de Battle Fever J, o canal USA Network decidiu produzir seu próprio “sentai” para brigar com os Rangers, o Jovens Tatuados de Beverlly Hills, que o SBT mais uma vez nos ajudou a conhecer. Contudo, a série era extremamente precária e foi um fracasso retumbante, inclusive no Brasil.

O parceiro de longa data de Saban, Shuky Levi, deixou a empresa e fundou a DIC, que se mancomunou com a Tsuburaya Productions em 1994 na produção de Super Human Samurai Cyber-Squad, versão americana de Super-Homem Eletrônico Gridman. Haim Saban tentou impedir que seu companheiro competisse com ele, mas não conseguiu, visto que as empresas japonesas com que eles tinham contato eram diferentes. O que o criador dos Power Ranger exigiu foi a mudança do título, que no começo estava planejado para ser Power Boy. De qualquer forma, o seriado, visto aqui pela finada TV Manchete, afundou em poucos meses (a Sato Company detém os direitos da série no Brasil).

Durante uma década, a Saban Enterteinment e os Power Rangers cresceram muito. Com a ajuda de profissionais renomados do tokusatsu japonês, como diretores, dublês, etc, que passaram a atuar regularmente no seriado, a empresa desenvolveu de tal forma sua criação a ponto de, hoje em dia, serem necessárias muito poucas cenas da versão original para compor o produto final.

Muitos desgostam, mas a verdade é que a Saban aprendeu a fazer tokusatsu de qualidade, sim, a ponto de, hoje em dia, não dever nada, ou quase nada, à matriz japonesa (ah sim, sempre sobram algumas gargalhadas coletivas no fim dos episódios e piadinhas de retorcer o estômago no meio das lutas, mas esses são americanismos incorrigíveis…). A Saban chegou a um nível em que poderia muito bem deixar as versões originais em paz e começar a criar seus próprios heróis, que, com certeza, só viriam para somar ao gênero dos tokusatsu. Só que a parceria com a Toei Company é extremamente rentável para ambas as partes, e, como dizem, não se deve mexer em time que está ganhando, certo? Para a Saban está certíssimo.

A TOMADA DO OCIDENTE

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Os Power Rangers são fruto de uma série de tentativas e idéias da Saban e da Toei de cativar a audiência do ocidente com a fórmula nipônica. Para entender a história toda é necessário que se volte vinte e dois anos no tempo. Em 1981, a Toei International de Los Angeles, subsidiária da Toei Company, tentou dar o primeiro passo rumo à internacionalização de seus heróis. O objetivo era produzir uma versão americana para o sentai Esquadrão Solar Sun Vulcan, o quinto programa do gênero, tendo-se o conhecimento de que alguns seriados japoneses eram exibidos em canais UHF locais dos EUA com certa aceitação. O produtor Susumu Yoshikawa, figura lendária dos tokusatsu, especialmente dos super sentai em que produziu entre muitos, o Goggle Five, estava trabalhando em Sun Vulcan e chegou a ser cogitado para ir até os EUA supervisionar pessoalmente todo o projeto de adaptação e lançamento da série por lá. Acabou que a tentativa foi inviabilizada devido a impossibilidade de vender o seriado às emissoras de TV americanas. Não existia espaço nem tradição que sustentasse uma atração daquelas.

O plano da Toei Internacional, apesar de frustrado, já deixava claro o interesse da empresa em exportar os Super Sentai. Recém-saída da década de 1970, tempos de glória para a indústria do tokusatsu, a produtora já não pisava mais em ovos. Já tinha conhecimento o suficiente do poder de fogo de seus personagens e do seu estilo de entreter. Mesmo sabendo das diferenças culturais enormes existentes entre Japão e EUA, o estúdio percebeu que a fórmula nipônica poderia dar muito certo na terra do Tio Sam. No entanto, o resultado frustrado da empreitada mostrou que eles estavam doze anos adiantados.

O tempo correu e, em 1987, Haim Saban chegou junto à Toei com a idéia de produzir uma versão americana de Metalder, o Homem-Máquina, o que não deu certo. A partir dos anos de 1990, o foco da empresa passou a ser licenciar, adaptar e distribuir séries japonesas no mercado americano. O empreendedor retomou as negociações com a Toei Company e sugeriu desta vez americanizar o então mais recente super sentai da produtora, Esquadrão Jurássico Jyuranger, de 1992. Saban explicou que as crianças americanas poderiam ficar confusas vendo cinco japoneses como protagonistas e contou seus planos de substituí-los por atores estadunidenses. A Toei estava ciente do problema topou as alterações propostas por Saban, firmando assim a parceria entre as duas empresas. Faltava agora convencer as emissoras de TV, o passo mais difícil de ser dado.

Inovar nem sempre é fácil. A falta de tradição às vezes pode se tornar uma barreira quase intransponível. Haim Saban cansou de apresentar a série a executivos de grandes emissoras, mas a estranheza dessa gente ao olhar para o seriado sempre acabava desovando num doloroso “não”. Nos EUA, existe um forte consenso entre os poderosos tomadores de decisões das emissoras de televisão sobre o que é apropriado para as crianças e o que não é. E essas pessoas acharam que um seriado como Power Rangers não sobreviveria uma semana no ar em plena época dos glamurosos e multibilionários efeitos visuais.
As portas só se abriram quando a série chegou nas mãos de Margaret Loesch, da Fox Children´s Network. Ela disse: “Todos, incluindo o meu chefe, disseram: isso é um lixo!”, mas completou, “esse programa pode ser mal feito, mas tem personagens extremamente criativos”. A Fox Childen´s Network defende que as crianças gostam de diversidade de entretenimento, assim como os adultos. Naquele tempo, o canal exibia desenhos de super heróis, como X-Men e Batman: The Animated Series e comédias como Animaniacs ou Tiny Toons. Por serem diferentes de tudo o que existia até então, os Power Rangers ganharam um horário da grade da emissora. Imediatamente, os cinco heróis viraram um fenômeno de audiência sem precedentes. Logo na primeira semana, exatamente no dia 30 de outubro de 1993, conseguiram uma marca história de 25.1 pontos no Ibope. Com isso, Mighty Morphin Power Rangers ganhou o título de programa infantil mais assistido da história da TV americana.

Os brinquedos da série, lançados pela Bandai, também săo parte do sucesso da marca. As miniaturas dos heróis, que mudavam a cabeça entre a versão civil e a transformada do personagem, além de brinquedos com os os Zords, os vilões e etc, fizeram a criançada pirar de vez. Apesar da falta de experiência no negócio, a Saban conseguiu aos poucos seguir a mesma estratégia de marketing agressivo dos japoneses: a de sincronizar o lançamento dos brinquedos com a exibição na TV. Com isso, depois que o garoto assiste os Rangers ganhando um novo robô, por exemplo, ele vai encontrar nas lojas todos os brinquedos referêntes àquela fase. No Japăo, não só brinquedos, mas o lançamento de jogos de videogame, revistas em quadrinhos, especiais de cinema, CDs de música, cards, e mais uma lista de bugigangas relacionadas ao respectivo personagem ou marca já estão todas planejadas antes da série entrar no ar.

O planejamento sobre em que momento cada item deve ser lançado também é minuciosamente estudado, o que faz a criança consumir tudo o que vê pela frente.
Essa lavagem cerebral foi adaptada à realidade americana e sendo aperfeiçoada ano a ano. Foi graças as a esta interação de mídias que os Power Rangers estão vivos depois de dez anos – nenhum outro programa infanto juvenil esteve por tanto tempo no ar e sempre com boa audiência.

NOVOS RUMOS

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Em 1995, a Saban Entertainment e a News Corpotation firmaram uma parceria que beneficoiu cada parte com 49,5% das ações de toda a família Fox, a Fox Family Worldwide (o 1% que sobrou ficou com a Allen & Company Inc.). No final de 2000, Saban quis vender sua parte para News Corp, mas a empresa já estava satisfeita com a sua porcentagem. Noentanto, pouco depois, foi decidia a venda de toda a companhia para a Disney. O negócio foi fechado no começo de 2001. O império fundado pelo pai de Mickey pagou, em dinheiro vivo, três bilhões de dólares pela Fox Family Worldwide e assumiu mais dois bilhões em dívidas, totalizando a desconcertante quantida de cinco bilhões de dólares.

Em troca, a Diney passou a ser dona da Saban Enterteinment e todas as suas 6.500 horas de programação infantil que chegam até 25 milhões de pessoas espalhadas por cinquênta países, em 15 línguas. No pacote também veio o Fox Family Channel, canal a cabo que atinge cerca de 81 milhões de assinantes. A Fox Kids ficou de fora da negociação. Em outubro deste ano, Haim Saban comprou a KirchMedia, empresa de TV cujas emissoras dominam cerca de 24 % de toda a audiência da Alemanha.

Enquanto isso, os Power Rangers continuam caminhando com força total nas manhãs de sábado rede ABC sem data para chegarem ao fim…
(Awika! no. 3 – 2003)


8 Comentários so far
Deixe um comentário

Excelente matéria! Sempre quis saber mais sobre a história da Sabanização dos Tokusatsus! Continuem assim!

Comentário por Carlos

Bons tempos do Awika!, durou pouquíssimo mas o suficiente para deixar saudade. Será muito legal relembrar dos textos da revista, RX, valeu!

Comentário por Lagarto

Muito foda a matéria! Uma das melhores que eu já li até hoje! Vê se publica a versão completa ae, fera!

Comentário por Bruno Seidel

Esta matéria vai entrar pra história!!! Eis o meu comentário!!!

Comentário por Vinícius BR-2009

Realmente essa matéria é muito boa, como, aliás, eram todas as publicadas no Awika.

Gosto muito desses textos que buscam não só fazer a análise superficial da série, mas também buscar histórias de produção e bastidores.

Nesse sentido, dá para dizer que o Awika é da mesma família das saudosas revistas “Gyodai” e “Herói Mangá”. Realmente uma pena que ambas tenham tido vida curta.

Comentário por Ricardo Cerdeira

Gostava muito do site, espero que volte de fato, faz falta no cenario atual, ainda mais levando em conta as novidades do ano, demorou pra algum empresario patrocinar um novo projeto!

Comentário por flasHQ

Eu descobri uma religião parecida com os Power Ranges que é o culto aos répteis por causa dos poderes dos dinossauros, das 3 primeiras fases da série de televisão.Então eu faço parte dessa religião porisso eu me apaixonei por Kimberly a Ranger rosa.

Comentário por Krishna

haim saban não fez nada além de fazer as pessoas terem uma visão infantil sobre tokusatsus

Comentário por kamen rider den




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